quarta-feira, 16 de junho de 2010

Caminhada do Dia de Portugal (2)

10 de Junho de 2010 – Mondim de Basto

Conhecer S. João Baptista de Pardelhas...à chuva!

A caminhada com cerca de 8km em círculo, foi percorrida praticamente debaixo de moderada e incomodativa chuva, mais incessante na parte final, que nos deixou todos encharcados. Este percurso desenrolou-se no vale profundo de Pardelhas, onde noutros tempos, ao logo dos montes e das fragas deste... “principal braço do Maran, entre os mais della, he Pena Suar que desse para o poente entre esta freguezia e a de Campanhó”... pastavam muitos cabritos e poucas ovelhas. Hoje poucos vimos, mas o Companheiro Armando encontrou no solo os chifres de um e levou consigo como recordação. Também o acto rural de lavrar com o arado puxado por uma parelha de vacas maronesas foi um soberbo quadro rural que presenciamos com emoção. Diz quem conhece Pardelhas há muitos anos, que o tempo passa e praticamente nada muda. Vertente da Serra geralmente com pouco sol, tem um Vale verdejante e que num dia de céu limpo será visivelmente mais luxuriante aos nossos olhos.
Pardelhas é um dos quadros mais belos e escondidos da Serra do Alvão e enquadra-se num cenário natural de rara beleza. Toda a paisagem montanhosa e especialmente junto aos cursos de água, com predominância para salgueiros e amieiros, bem como os campos agrícolas em socalcos, são encantadores e convidativos para os passeios a pé, mesmo com chuva a arreliar. Por sinuosos e estreitos caminhos, vislumbram-se os velhos moinhos e os canastros ou espigueiros onde se guarda o milho. Nos telhados do casario, algum reconstruído e muito em ruínas, predomina a lousa, que também se encontra ao longo das escavadas calçadas e nos muros ou socalcos que ladeiam os montes. Nestes, também se avistam em ruínas um especial património que se fosse preservado, assumiria grande importância histórica da região: as “silhas dos ursos”. Trata-se de estruturas com cerca de dois metros de altura, construídas em pedra encimada e de forma circular, onde no seu interior se colocavam os cortiços das abelhas protegidos do alcance dos ursos que noutros tempos vagueavam por esta região. Estão localizadas a meia encosta, próximo aos cursos de água, sempre repletos de vegetação rasteira, como urzes, carquejas, tojos e giestas, onde as abelhas pastam e recolhem o pólen para fabricar o delicioso néctar. Existem registos da actividade da apicultura em Mondim de Basto desde há séculos, pese embora tenha vindo em declínio nas últimas décadas. Vimos algumas colmeias ali junto duma encosta e pensamos que se esta actividade recuperasse, mesmo sem existirem ursos, as silhas poderiam ser reconstruídas, preservando-se deste modo estas estruturas para as gerações do futuro como importantes testemunhos que tiveram em tempos um grande peso sócio/económico nas comunidades de montanha e das freguesias de Mondim de Basto.


Ficam para a história da actividade deste dia a paciência, o bom desempenho e comportamento correcto dos caminheiros, com destaque para o pequenino Afonso, com apenas 4 anos e um promissor caminheiro do futuro! Um grande beijinho para ele.
Destaca-se ainda aqueles momentos sempre fascinantes e com adrenalina, como são as travessias dos cursos de água sem pontes, que proporcionam em grupo momentos de espectacularidade e beleza. Pelo caminho de pé posto até à margem houve algumas escorregadelas, mas nas poldras todos se equilibraram e ninguém foi ao banho.
Eu queria contemplar melhor toda a beleza do Vale de Pardelhas, mas nesta altura era quando mais chovia e lembrei-me daquelas palavras do poeta:

À espera que a Primavera
Acabe com meu tormento
E me traga melhor tempo,
Estou pior que uma fera!

Das linhas de água que percorrem a freguesia de Pardelhas, lê-se nas Memórias Históricas de Mondim de Basto ...«o ribeiro do Bouço junta-se ao rio do Sião formando o ribeiro da Ribeira, que antes de desaguar no Rio Olo recebe o ribeiro da Moura com o ribeiro Seco e ainda o ribeiro do Chão do Rosso».
Do património religioso edificado, a Igreja é do padroado de S. João Baptista, com dois altares, o do Senhor Jesus e da Nossa Senhora do Rosário. No caminho, o cruzeiro do Senhor dos Aflitos proporciona a última bênção aos transeuntes antes da saída para a lida do campo.
A freguesia de Pardelhas tem uma área de 1931 hectares. Registava em 2001, cento e nove habitantes. Situa-se entre as freguesias de Ermelo a Norte, a de Campanhó a Oeste e o concelho de Vila Real a Sudoeste e Oeste. Pertenceu ao concelho de Ermelo até 31 de Dezembro de 1853, data da sua extinção, passando a fazer parte do de Mondim de Basto.
No final da caminhada reunimo-nos todos em Ermelo, no Restaurante “Sabores do Alvão” para degustarmos uma saborosa arrozada com morcelas, pataniscas, fêveras, bolo e pinga quanto baste.
Agradecemos ao Executivo da Junta de Freguesia de Mondim de Basto mais um belo dia que nos proporcionou em contacto directo com a Natureza, com as gentes e costumes das freguesias de Mondim de Basto, partilhando um espírito de grupo com os 25 participantes que aderiram e desejamos que estes eventos continuem a realizar-se no futuro.

Continua...

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