quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

"O valioso tempo dos maduros"

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Autor: Mário de Andrade (1893-1945)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Conto de Natal - 2010

Nem a mulinha faltava!

- Esperai... Esperai um pouco... Por piedade!
Mas ninguém atendia a súplica da pobre mulher descalça, desgrenhada, cambaleante, com o filhinho moribundo nos braços.
A onda humana seguia de tropel; tanto pior para os que fraquejavam e íam ficando pelo caminho. O terror atordoava, endoidecia; o instinto de conservação gerava um egoísmo feroz que sufocava direitos de família, de amizade, ou simplesmente humanos.
Dum lado e outro da estrada o aspecto era desolador. Casas truncadas, árvores derrubadas, campos amortalhados em cinzas. Porque por eles passara o hálito calcinante da guerra.
Ao longe o fragor do bombardeamento ressoava sempre.- Senhor... misericórdia!
A fugitiva, desenganada quanto a socorros naturais, voltava o seu apelo plangente para o alto.
Mas o Céu, lá por detrás daquela camada de nuvens plúmbeas, parecia surdo ou indiferente ao seu clamor.
Incapaz de dar mais um passo, sentou-se num resto de tronco esfacelado, com a criança sempre apertada no chaile e o olhar perdido ao longe, aguardando nem ela saberia o quê.
A noite descia. Uma faixa arroxeada, sanguínea, marcava a linha do horizonte. Tudo era deserto em redor. Mas a mulher não tinha medo, agora que o perigo parecia não avançar - o perigo único que, para ela, era a guerra.
Tudo era deserto e calmo; e finalmente o bombardeamento cessava. Nenhum ruído agora e o olhar da mulher permanecia fixo, apático.
Nenhum ruído?... Nada?...Sim... Uma manchazita escura, além na curva da estrada, que se move, que caminha, que se define pouco a pouco, no crepúsculo...
A mulher estremece, levanta-se e aguarda.
É um carrito, uma carrocinha puxada por uma pequena mula esquelética e coxeante...
Ninguém ao lado e na boleia. Virá dentro, deitado, ferido, morto talvez?...
Resoluta a mulher tolhe o passo ao animal e também este parece satisfeito com o encontro. Pára sem relutância e meneia a cabeça como a pedir afago.
Dentro não há ninguém. Um feixe de palha, uma velha manta e, o que é melhor ainda, um lenço atado pelas pontas e contendo um pedaço de pão e umas maçãs.
E ela tinha fome, sim. Que lhe importa, porém a vida, se o filho vai morrer?
No entanto, também nela prevalece o instinto de conservação. Pega no pão, come àvidamente e, compassiva, estende uma maçã à mulita. Reanimando-se, sobe para o carro, toma as rédeas e incita o animal a andar. Ele obedece, mas o seu andar é cada vez mais oscilante, mais fatigado, e a mulher, que sabe o que é sofrer, de novo sente compaixão. Vão justamente passando junto de um alpendre meio desmoronado. Por detrás há um telheiro que parece intacto ou pelo menos pouco danificado. A mulher apeia-se, anima a mulita com outra maçã e puxa-a para aquele abrigo. O pequenino geme. A mãe desembrulha-o um pouco e procura em vão, na semi-obscuridade, observar-lhe o rosto. Beija-o então numa crise de ternura que havia muitas horas já não lhe desafogava o peito, e um clarão de fé desentorpece-lhe o espírito:
- Jesus... Maria Santíssima... Salvai o meu filho!
- Sim... Ela o Salvará. Rezai convosco.
E uma figura andrajosa, mas de bela cabeça e barba grisalhas, destaca-se do fundo negro do alpendre e aproxima-se compadecida...
Irmã Anjos... tenha paciência... não vá tão depressa... olhe que tenho o dobro da sua idade...
- Ah! Perdão, Madre Dores... Nem reparava que íamos a subir...
Fazia voltar a bicicleta, passava pela rectaguarda e vinha alinhar com a da Superiora que claramente se mostrava fatigada.
- Não será melhor descansarmos um pouco? - perguntou.
- Descansar por descansar, simplesmente...
Ah! Não, Irmã. Por aqui nada há a fazer... vamos... mais além... até que encontremos alguém a quem façamos o bem que pudermos, enquanto descansamos...
E de novo, silenciosas, continuaram a pedalar.
O dia rompia suavemente. A região tragicamente devastada aparecia salpicada de neve que nas ruínas escorria denegrida e pastosa...
Ao primeiro raio de sol que surgiu no horizonte, Madre Dores exclamou alegremente:
- Boas Festa, Irmã Anjos!
É verdade! Estamos na vigília do Santo Natal... Boas Festas, Madre Dores!
- Natal de guerra... Que dó! Quando hão-de os homens compreender a mensagem de amor e paz do Menino Jesus?!
A voz de Madre Dores é agora repassada de tristeza e a irmã Anjos responde quase no mesmo tom:
- É a primeira vez na minha vida que não tenho um Presépio...
Mas a mais velha atalhava:
- Descansemos agora e rezemos as orações da manhã...
Olhava em roda e interrompeu-se, de novo, alegremente:
- Bem sabia que havíamos de encontrar alguém... Olhe... ali há gente.
Tinham chegado em frente da casa arruinada com o alpendre anexo. Apearam-se; e enquanto Madre Dores se demorava tirando vários embrulhos da bicicleta, a Irmã Anjos avançava pressunrosa para o alpendre, estacava pasmada e logo retrocedia toda excitada e jubilosa:
- Madre - disse a meia voz como receosa de quebrar o encanto - um presépio... com tudo...
Nem sequer falta a mulinha!

Autora: Maria de Freitas

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

XXXI Exposição de Aves - Matosinhos (1)

Olá Amigos

Decorreu de 18 a 21 de Novembro deste 2010 a XXXI Exposição CIOM (Clube Independente Ornitológico de Matosinhos) conjuntamente com a V Exposição CCAP (Clube do Canário Arlequim Português) e uma vez mais no lugar da Ponte da Pedra, em Leça do Balio.
Bem pertinho de S. Mamede de Infesta, não podia deixar de visitar este singelo evento, organizado sempre com dedicação da Direcção e sócios, criadores de aves de companhia, um hobbye fascinante para quem tiver espaço e queira preencher o tempo com um entretenimento construtivo e ao mesmo tempo ajudando a preservar a Natureza.
Estavam expostas muitas aves - cada vez mais - dos variados grupos e raças, que o juri ajuizou e pontuou mais as de melhor qualidade, premiando quem dedicou grande parte do tempo só para elas e deste modo são recompensados. Os que não foram distinguidos aprendem a melhorar e a aperfeiçoarem a qualidade do seu plantel, criando as suas aves dentro dos parâmetros das suas regras e obedecendo às espécies, classes, cores, formas e tamanhos de origem que são reconhecidos, entre outros factores, bem como as mutações permitidas e já acreditadas quer em Portugal, quer internacionalmente. Achei, por exemplo, alguns "gloster" demasiado gigantes em relação ao tempo que também criei.
Por isso é que não adianta aos criadores que querem expor/competir (e no caso particular que observei do canário "Arlequim Português") cruzar lipocromos com melânicos ou simples pintos(variegados) e considerá-los iguais aos de raça já apurada há alguns anos, uma raça de que gosto de ver por ser Portuguesa e que alguns têm trabalhado com afinco para a melhorar e ser reconhecida em todo o Mundo. Considerado um canário "Policromo" podemos vislumbrar seis cores misturadas, desde o amarelo, cinza, laranja, bronze, branco e verde. Além destas cores, sobressai o castanho do dorso, que não toma a cor de fundo, geralmente alaranjada e os bastonetes são pretos. É um canário sempre vivo, rústico e alegre quando em perfeitas condições de saúde. Repare-se que esta raça permite uma grande variedade de desenhos que o tornam fascinante pelo imprevisto que cada nova geração traz, dando inclusive mais vida e alegria às exposições de aves, ao contrário de muitos corredores cheios de aves todas iguais e algo monótonas. Se formos a ver e para gáudio dos antigos mestres passarinheiros, o canário "Arlequim Português" já se criava há dezenas de anos, só que agora com a totalidade das seis cores misturadas e o tamanho particular, sem grandes "estroncamentos" com yorkshires ou lencashires que o tornem demasiado esguio e de poupa à inglesa. O canto deve ser sempre forte a condizer com a vivacidade e não suave, com muito "tcha, tcha, tcha pelo meio" ou a "bater castanholas".
Claro que o júri descortina as irregularidades e simplesmente desclassifica essas aves trazidas pelo seu criador iludido.- Os "pais" destes desclassificados são de boa raça e foram adquiridos de confiança - murmura alguém inconformado. E ouve-se também dizer que a culpa de serem desclassificados é... do Pinto da Costa. Quem diria!

Para se evitar ou minorar estes dissabores, estou a lembrar dum conselho já muito antigo:

« (...) Todo o individuo que quer ser criador de canários ou criar várias raças, deve antes de investir e comprar exemplares, fazer primeiro um estudo da canaricultura, das raças que quer criar e onde vai adquirir. No caso especial do "Canário Arlequim Português" existem já bons criadores que dão consistênsia às linhas desta raça.
Se queremos expor e competir, deve-se, pois, adquirir aves a criadores em que (todos!) os seus pássaros manifestem boas características, ou seja, criadores de topo desta raça. Todavia, não nos devemos iludir pelo nome ou pelo facto de alguns criadores serem também juízes. O facto de ostentar essa classificação, não significa que só tenha bons exemplares e que vá ceder os puros. Estes, devem por isso facultar o cadastro das aves que estão sendo adquiridas e serem transparentes na sua venda, para evitar dissabores ao adquirente.»

Continua...

XXXI Exposição de Aves - Matosinhos (2)

Por fim e segundo a organização, este evento correu positivamente para os dois clubes parceiros e gostei de encontrar no recinto alguns "Mestres" da região de S. Mamede de Infesta e Matosinhos, amantes desta arte ancestral, como o quase centenário "mestre Azevedo" (Sr. Domingos Azevedo) premiado em lizards; "mestre Alves" (António J. Alves); "mestre Paulista" (José M. Nogueira) e os seus agapornis roseicollis; e outros como o "mestre Amaro"
(José Amaro) com quem cheguei a competir noutra exposição há anos, com "Opalas Vermelhos" e como não sou mestre...saí derrotado.
Como o tempo passa. Mas, tal como com muitos aficionados, o AMOR PELAS AVES permanece!

Basta que me lembre sempre daquelas palavras que descrevem a postura apaixonante do verdadeiro criador:

Quem é esse "mestre Couto"?
Mora num Bairro? Ou num souto?
Numa Aldeia? Vila? Ou Cidade?
Mas as avezinhas que tem
Mesmo presas sentem-se bem
Como estivessem em Liberdade!

Dou os parabéns ao Clube Independente Ornitológico de Matosinhos por manter esta tradição da exposição regional e aproveito para desejar a todos os criadores e verdadeiros amantes das aves (quantos «Heróis» esquecidos da Avicultura Portuguesa!), um ano de 2011 com muitas e belas criações, se possível melhorando a qualidade do seu plantel que os envaideça e orgulhe quem admira esta arte ancestral e defende a Ornitologia em geral, em prol da conservação da biodiversidade e destas belíssimas espécies que o mundo das aves nos proporciona.

Para conhecer melhor o CIOM, visite a página elaborada pelo José Manuel Nogueira (Nelo Paulista): http://ciommatosinhos.no.sapo.pt/ ciom@sapo.pt

Continua...

XXXI Exposição de Aves - Matosinhos (3)

Mais alguns momentos fotográficos do Evento

Aquele Abraço