terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Conto de Natal - 2010

Nem a mulinha faltava!

- Esperai... Esperai um pouco... Por piedade!
Mas ninguém atendia a súplica da pobre mulher descalça, desgrenhada, cambaleante, com o filhinho moribundo nos braços.
A onda humana seguia de tropel; tanto pior para os que fraquejavam e íam ficando pelo caminho. O terror atordoava, endoidecia; o instinto de conservação gerava um egoísmo feroz que sufocava direitos de família, de amizade, ou simplesmente humanos.
Dum lado e outro da estrada o aspecto era desolador. Casas truncadas, árvores derrubadas, campos amortalhados em cinzas. Porque por eles passara o hálito calcinante da guerra.
Ao longe o fragor do bombardeamento ressoava sempre.- Senhor... misericórdia!
A fugitiva, desenganada quanto a socorros naturais, voltava o seu apelo plangente para o alto.
Mas o Céu, lá por detrás daquela camada de nuvens plúmbeas, parecia surdo ou indiferente ao seu clamor.
Incapaz de dar mais um passo, sentou-se num resto de tronco esfacelado, com a criança sempre apertada no chaile e o olhar perdido ao longe, aguardando nem ela saberia o quê.
A noite descia. Uma faixa arroxeada, sanguínea, marcava a linha do horizonte. Tudo era deserto em redor. Mas a mulher não tinha medo, agora que o perigo parecia não avançar - o perigo único que, para ela, era a guerra.
Tudo era deserto e calmo; e finalmente o bombardeamento cessava. Nenhum ruído agora e o olhar da mulher permanecia fixo, apático.
Nenhum ruído?... Nada?...Sim... Uma manchazita escura, além na curva da estrada, que se move, que caminha, que se define pouco a pouco, no crepúsculo...
A mulher estremece, levanta-se e aguarda.
É um carrito, uma carrocinha puxada por uma pequena mula esquelética e coxeante...
Ninguém ao lado e na boleia. Virá dentro, deitado, ferido, morto talvez?...
Resoluta a mulher tolhe o passo ao animal e também este parece satisfeito com o encontro. Pára sem relutância e meneia a cabeça como a pedir afago.
Dentro não há ninguém. Um feixe de palha, uma velha manta e, o que é melhor ainda, um lenço atado pelas pontas e contendo um pedaço de pão e umas maçãs.
E ela tinha fome, sim. Que lhe importa, porém a vida, se o filho vai morrer?
No entanto, também nela prevalece o instinto de conservação. Pega no pão, come àvidamente e, compassiva, estende uma maçã à mulita. Reanimando-se, sobe para o carro, toma as rédeas e incita o animal a andar. Ele obedece, mas o seu andar é cada vez mais oscilante, mais fatigado, e a mulher, que sabe o que é sofrer, de novo sente compaixão. Vão justamente passando junto de um alpendre meio desmoronado. Por detrás há um telheiro que parece intacto ou pelo menos pouco danificado. A mulher apeia-se, anima a mulita com outra maçã e puxa-a para aquele abrigo. O pequenino geme. A mãe desembrulha-o um pouco e procura em vão, na semi-obscuridade, observar-lhe o rosto. Beija-o então numa crise de ternura que havia muitas horas já não lhe desafogava o peito, e um clarão de fé desentorpece-lhe o espírito:
- Jesus... Maria Santíssima... Salvai o meu filho!
- Sim... Ela o Salvará. Rezai convosco.
E uma figura andrajosa, mas de bela cabeça e barba grisalhas, destaca-se do fundo negro do alpendre e aproxima-se compadecida...
Irmã Anjos... tenha paciência... não vá tão depressa... olhe que tenho o dobro da sua idade...
- Ah! Perdão, Madre Dores... Nem reparava que íamos a subir...
Fazia voltar a bicicleta, passava pela rectaguarda e vinha alinhar com a da Superiora que claramente se mostrava fatigada.
- Não será melhor descansarmos um pouco? - perguntou.
- Descansar por descansar, simplesmente...
Ah! Não, Irmã. Por aqui nada há a fazer... vamos... mais além... até que encontremos alguém a quem façamos o bem que pudermos, enquanto descansamos...
E de novo, silenciosas, continuaram a pedalar.
O dia rompia suavemente. A região tragicamente devastada aparecia salpicada de neve que nas ruínas escorria denegrida e pastosa...
Ao primeiro raio de sol que surgiu no horizonte, Madre Dores exclamou alegremente:
- Boas Festa, Irmã Anjos!
É verdade! Estamos na vigília do Santo Natal... Boas Festas, Madre Dores!
- Natal de guerra... Que dó! Quando hão-de os homens compreender a mensagem de amor e paz do Menino Jesus?!
A voz de Madre Dores é agora repassada de tristeza e a irmã Anjos responde quase no mesmo tom:
- É a primeira vez na minha vida que não tenho um Presépio...
Mas a mais velha atalhava:
- Descansemos agora e rezemos as orações da manhã...
Olhava em roda e interrompeu-se, de novo, alegremente:
- Bem sabia que havíamos de encontrar alguém... Olhe... ali há gente.
Tinham chegado em frente da casa arruinada com o alpendre anexo. Apearam-se; e enquanto Madre Dores se demorava tirando vários embrulhos da bicicleta, a Irmã Anjos avançava pressunrosa para o alpendre, estacava pasmada e logo retrocedia toda excitada e jubilosa:
- Madre - disse a meia voz como receosa de quebrar o encanto - um presépio... com tudo...
Nem sequer falta a mulinha!

Autora: Maria de Freitas

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