sábado, 29 de outubro de 2011

O CORVO E O PAVÃO


Passeando o pavão com ufania,
É fama que dissera ao corvo um dia:
- Repara quanto devo à Natureza,
Olha que lindas cores, que viveza!
Que adorno, que matiz! Olha este rabo!
Em mim não há senão; E tu, diabo
Negro como o carvão, como um besouro,
Ainda és, de mais a mais, a ave do agouro!

O corvo, que na língua não tem papas,
Lhe responde: - Essas penas são guapas,
Mas, para refrear teu desvario,
Observa dessas pernas o feitio. -
Ainda (quem dará crédito a isto?)
As próprias pernas o pavão não tinha visto!
Mas que muito, se há gente, e gente grave,
Que em seus olhos não vê nem uma trave?

Poema de M. M. de Barbosa du Bocage

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