quinta-feira, 17 de março de 2011

ORNITOLOGIA – Textos/Ilustrações (2)

O Amor pelas Aves (B)

Dos sete aos treze anos foi um período muito importante e decisivo para a minha personalidade. Era o meu despontar para a Natureza, de conhecer e amar os animais, bem como admirar as árvores e as plantas que avistava por onde passava.
Dava largas à imaginação e fundia com a minha sensibilidade, poemas ou frases que lia e que me empurravam para a descoberta, dando o verdadeiro sentido a essas palavras que me deslumbravam e interpretava como um dever e necessidade para a minha Alma.


«Tu, que cresces para a Vida e que a cada dia vais tendo maior capacidade de observação, olha e repara em tudo que te rodeia. Não deixes escapar nada.»


«Ama as aves!».


Meu Deus, como gostei sempre tanto desta frase tão pequenina!
Como é que eu podia não amar as aves, se andava na cata delas, a espreitar a sua encantadora vida intima?
O “ladrão” do melro toda a noite cantou! – dizia alguém que não conseguiu dormir.
Depressa eu aprendi e entendia este poema de Miguel Torga:

A lição do Melro


Oiço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.

Um poema de Amor
Singelo e desprendido
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do Natural,
Que é sempre o mesmo e variado!

Fascinaram-me histórias do “Mestre” Miguel Torga, como a do «Farrusco» (livro “Bichos”). O melro que escutava e “ria” das preces da Clara, uma jovem pretendente a casar e arrastada pela onda da lengalenga, constantemente perguntava ao cuco de Vilar de Celas: “Cuco do Minho, Cuco da Beira, quantos anos me dás de solteira? – e este a cada dia que passava, cantava sempre mais vezes: cucu...cucu...cucu.
O chilrear e as melodias do seu canto enternecia-me o coração e fazia-me mais feliz!
Sempre que podia, fugia de casa e passava tanto tempo no campo a observar tudo, mas eram as aves a principal atracção. Escondido e sentado num lugar que ninguém me visse, eu deliciava-me a ver os melros, os pintassilgos, os verdelhões, os chamarizes, as rolas e os pardais a saltitar de ramo em ramo ou então erguendo voo de árvore para árvore, cantando felizes. Os seus movimentos eram tão diferentes dos outros animais.
Levei algum tempo a descobrir os seus ninhos, especialmente dos melros, que eram muito espertos. Eu via o melro pousado no arbusto, deslocava-me sorrateiro e ao aproximar-me do local, após verificar tudo a pente fino, não encontrava qualquer ninho.
Que raio é isto? Como pode ser, eu vejo eles a levar comida no bico para os filhos e não encontro o ninho? Há qualquer coisa que está errado comigo e não entendo, dizia cabisbaixo.
Mais tarde, e após muito os observar, é que encontrei o primeiro ninho, cheio de filhinhos, escuros e meio russos.
É que os melros são espertos. O macho e a fêmea levam comida no bico e dirigem-se para um ramo, ao alcance da nossa vista, deixando-se ficar aí largos minutos, se notarem que estão a ser observados. Só quando verificam que já não há perigo, é que se dirigem para o local onde está o ninho, às vezes cem ou mais metros de distância dali.
Eu tive que me esconder bem, várias vezes para eles não me verem e descobrir o ninho.
E que emoção e prazer eu senti quando descobri o primeiro ninho, num muro entre as heras, junto ao ribeiro. Chamei-lhe logo de “meu”!
Era tão redondinho, construído com a habilidade que só as aves sabem fazer. Era feito de ervas secas, musgo, cabelos, farrapitos pequenos e lama à volta a segurar.
Lá dentro quatro cabecinhas que, ao verem a minha mão a aproximar, abriram todos o bico mas, num ápice logo se agacharam e comprimiam-se dentro daquele espaço.
Percebi logo que me deveria retirar e assim fiz.

Continua...

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