quinta-feira, 22 de julho de 2010

A Barca de Pedorido (3)

Recordando...

O TRILHO DAS MINAS DO PEJÃO

Era dia 5 de Outubro de 2006 e comemorei os noventa e seis anos da revolucionária Implantação da República em Portugal, caminhando ao longo do Vale do Arda.
Quilómetros calcorreados e no Meirão, com a ponte derrubada, o rio transfigura-se do seu carácter manso e acolhedor para um cariz mais selvagem, obrigando-me a transpô-lo com auxílio das cordas.
Uma subida acentuada conduz ao miradouro de S. Domingos. Janela que se abre ao Mundo com tonalidades românticas e bucólicas. Cura milagrosa é essa Paz que lá se sente.
Estou a lembrar-me e lágrimas marotas escorrem – me pela face.
Embriegados pelo perfume das tileiras junto do campanário que o santo vigia, os caminheiros Restauradores foram os romeiros que desceram as colinas e se exilaram na profundeza das minas húmidas, onde a silicose deixou rastos impossíveis de ocultar.
Na reflexão desta hora, um barco navegava no rio que dizem levar ouro e na Quinta da margem que ele beija, sessenta taças ergueram-se aos céus de Pedorido, homenageando os mártires que o carvão dizimou.

As Minas e a Quinta de Germunde

A Zona Carbonífera do Couto Mineiro do Pejão estende-se geograficamente pelas freguesias de Raiva, Paraíso e Pedorido. O pólo de Pedorido iniciou a extracção em 1886 e encerrou a actividade em 1994, por deliberação do Governo. Durante mais de cem anos, trabalharam nestas minas dezenas de operários e foram extraídas quantidades incalculáveis de carvão, que era transportado pelo Rio Douro em típicos barcos de grande tonelagem – o Rabão Negro, da família dos Rabelos– desde as minas do Pejão até à Fábrica de Briquetes no esteiro de Campanhã, onde sofria transformações e era comercializado.
Foi durante longos e árduos anos a principal fonte de receita de muita população do Concelho de Castelo de Paiva, nomeadamente: Pedorido, onde se localizam as minas, Póvoa, assim como de muita gente de Raiva, Rio Máu e Sebolido, estas duas freguesias da margem direita do Douro.
Oxalá o seu actual proprietário, Dr. José Alberto Amorim, concretize o sonho de vir a construir um deslumbrante empreendimento turístico (Turismo Rural) nesta quinta maravilhosa, bem como recuperar as galerias das minas e criar o "Museu das Minas", para bem de todos!

O “Berto” e a Barca... Testemunhos da SILICOSE

Com a visita ao COMPLEXO MINEIRO DE GERMUNDE / PEJÃO, fiquei a compreender melhor a história do “Berto” de Sebolido, que foi mineiro do Pejão, onde ganhava o salário com que sustentava a mulher e os cinco filhos. Vinha da outra margem do Rio Douro, onde atravessava de barca do cáis de Rio Máu e desembarcava junto ao choupal das Concas, em Pedorido.
Trazia sempre ao peito uma medalha com a imagem de Santa Bárbara, a sua Padroeira.
Porém, ao fim de alguns anos, o “Berto” já não levava para casa só o salário. Como árvore de longos braços “enforcada” aos seus pulmões, o “Berto” carregava também essa terrível doença crónica e incurável, causada pela contínua inalação do pó, conhecida por silicose.

Um dia, como tantos outros, o “Berto” trabalhava nas profundezas da mina e... sentiu-se mal. Encostado à vagona do carvão começou a vomitar sangue...tanto sangue que quase encheu uma lata que ali estava.
Devoto dependente da sua arte, o “Berto” trabalhou até poder, mas naquele dia o seu corpo vacilara.
Envolto num lençol, o “Berto” atravessou pela última vez de barca o Rio Douro.

Elísio Rodrigues

Continua...

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