quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ao escurecer


Passou ontem por mim, ao escurecer,
Certo rapaz, radiante de alegria,
Que era o retrato do que eu fui um dia,
Na idade da esperança e do prazer.

Vendo-me, estremeceu, pois julgou ver
Seu rosto num cristal que o envelhecia,
E a mim, de o contemplar, me aparecia
Que ardentes ambições voltava a ter.

Um em frente do outro, ali parados,
Eu, vendo-me, enganado, em claro espelho,
Ele, vendo-se, triste, em negro poço,

Abraçamo-nos, ambos contristados,
Ele, porque há-de ser, como eu, um velho
E eu, por ter sido já, como ele, um moço!

Poema de Eugénio de Castro



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