segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Chove



Cái chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma, mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se sou triste ou não.
E a chuva cái levemente
Dentro do meu coração.

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela faz a mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!

Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partindo,
Se ao menos chovesse menos.

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

Versos de Fernando Pessoa 

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