quinta-feira, 19 de março de 2009

21 de Março - Dia Mundial da Poesia



Deixo ao cego e ao surdo

Deixo ao cego e ao surdo
A alma com fronteiras,
Que eu quero sentir tudo
De todas as maneiras.

Do alto de ter consciência
Contemplo a terra e o céu,
Olho-os com inocência :
Nada que vejo é meu.

Mas vejo tão atento
Tão neles me disperso
Que cada pensamento
Me torna já diverso.

E como são estilhaços
Do ser, as coisas dispersas
Quebro a alma em pedaços
E em pessoas diversas.

E se a própria alma vejo
Com outro olhar,
Pergunto se há ensejo
De por isto a julgar.

Ah. tanto como a terra
E o mar e o vasto céu,
Quem se crê próprio erra,
Sou vário e não sou meu.

Se as coisas são estilhaços
Do saber do universo,
Seja eu os meus pedaços,
Impreciso e diverso.

Se quanto sinto é alheio
E de mim sou ausente,
Como é que a alma veio
A acabar-se em mente ?

Assim eu me acomodo
Com o que Deus criou,
Deus tem diverso modo
Diversos modos sou.

Assim a Deus imito,
Que quando fez o que é
Tirou-lhe o infinito
E a unidade até.

Fernando Pessoa

terça-feira, 17 de março de 2009

19 de Março - Dia do Pai

Olá

Neste dia do Pai, o meu destaque vai para o "Gajo da Informática" (muitos também são pais!) que ao longo destes anos tem resistido à gravidade da crise.
Alguns, com bastante sacrifício, tem criado os filhos e sustentado a família com miseros euros!!


O Sérgio enviou-me este texto (desconheço o autor) e que transcrevo aqui neste meu blogue:

Gajo da Informática

COISAS QUE TODOS PRECISAM DE SABER SOBRE O GAJO DA INFORMÁTICA

1 - O GAJO DA INFORMÁTICA dorme. Pode parecer mentira, mas O GAJO DA INFORMÁTICA precisa de dormir e descansar como qualquer outra pessoa. Esqueça que ele tem telemóvel e telefone em casa; ligue só para o escritório ou para o telemóvel entre as 09h00m e as 13h00 (manhã) ou entre as 15h00 e as 19h00 (tarde) de Segunda-feira a Sexta-feira. O GAJO DA INFORMÁTICA também precisa de descansar aos Sábados, Domingos, feriados e NOS DIAS QUE INDICOU DE FÉRIAS.

2 - O GAJO DA INFORMÁTICA come. Parece inacreditável, mas é verdade. O GAJO DA INFORMÁTICA também precisa de alimentar-se e tem horas para isso, TODOS OS DIAS.

3 - O GAJO DA INFORMÁTICA pode ter família. Esta é a mais incrível de todas. Mesmo sendo um GAJO DA INFORMÁTICA, precisa de descansar no fim de semana para poder dar atenção à família, aos amigos e a si próprio, sem pensar ou falar em informática, impostos, formulários, reparações e demonstrações, manutenção, vírus e etc.

4 - O GAJO DA INFORMÁTICA, como qualquer cidadão, precisa de dinheiro. Por esta você não esperava, ah? É surpreendente, mas O GAJO DA INFORMÁTICA tem que dar de comer aos filhos e restante família! Também paga impostos, precisa de combustível, roupas e sapatos, e ainda consome xanax para conseguir relaxar. Não peça aquilo pelo que não pode pagar ao GAJO DA INFORMÁTICA.

5 - Ler e estudar também é trabalho. E trabalho sério. Pode parar de rir. Não é piada. Quando um GAJO DA INFORMÁTICA está concentrado num livro ou publicação especializada ele está a aprimorar-se como profissional, logo, a trabalhar.

6 - De uma vez por todas, vale reforçar: O GAJO DA INFORMÁTICA não é vidente, não faz tarôt e nem tem uma bola de cristal para adivinhar o que as outras pessoas pensam ou fazem. Se você julgou que era assim, demita-o e contrate um PARANORMAL, um BRUXO ou um DETECTIVE. Ele precisa de analisar, planear, organizar-se e que lhe expliquem
DETALHADAMENTE o que é pretendido para assim ter condições de fazer um bom trabalho, seja de que tamanho for. Prazos são essenciais e não um luxo. Se você quer um milagre, ore bastante,faça jejum, e deixe o pobre do GAJO DA INFORMÁTICA em paz.

7 - Em reuniões de amigos ou festas de família, O GAJO DA INFORMÁTICA deixa de ser O GAJO DA INFORMÁTICA e reassume o seu posto de amigo ou parente, exactamente como era antes dele ingressar nesta profissão. Não lhe peça conselhos ou dicas. Ele também tem o direito de divertir-se.

8 - Não existe apenas uma 'listagemzinha', uma 'rotininha', nem um 'textozinho', um 'programinha muito fácil para controlar isto e aquilo', um 'probleminha, que a máquina não liga', um 'sisteminha',uma 'visitinha rápida (aliás, conta-se de onde saímos e até chegarmos)'. Assim, esqueça os inha e os inho (programinha, textozinho, visitinha) ', pois os GAJOS DA INFORMÁTICA não resolvem este tipo de problemas. Listagens, rotinas e programas são frutos de análises cuidadosas e requerem atenção, dedicação. Planear, organizar, programar com concentração e dedicação, pode parecer inconcebível a uma boa parte da população, mas serve para tornar a vida do GAJO DA INFORMÁTICA mais suportável.

9 - Quanto ao uso do telemóvel: o telemóvel é uma ferramenta de trabalho.Por favor, ligue apenas quando necessário. Fora do horário de expediente, mesmo que você ainda duvide, O GAJO DA INFORMÁTICA pode estar a fazer algumas das coisas que você nem pensou que ele fazia, como dormir ou namorar, por exemplo.

10 - Pedir a mesma coisa várias vezes não faz O GAJO DA INFORMÁTICA trabalhar mais rápido. Solicite. Depois, aguarde o prazo dado pelo GAJO DA INFORMÁTICA.

11 - Quando o horário de trabalho do período da manhã vai até 13h00m, não significa que você pode ligar às 12:58 horas. Se você só se lembrou do GAJO DA INFORMÁTICA a essa hora, azar o seu, espere e ligue após o horário do almoço (lembra-se do item 2?). O mesmo vale para a parte da tarde: ligue no dia seguinte.

12 - Quando O GAJO DA INFORMÁTICA estiver a apresentar um projecto, por favor, não fique bombardeando-o com milhares de perguntas durante a reunião. Isso tira a concentração, além de dar-lhe cabo da paciência.

ATENÇÃO: Evite perguntas que não tenham relação com o projecto, tipo "Quanto custou o seu portátil?" ou "O que acha que devo comprar para o meu filho jogar em casa, um portátil ou um desktop?"

13 - O GAJO DA INFORMÁTICA não inventa problemas, não faz actualizações automáticas de Windows piratas, não tem relação com vírus, em resumo, NÃO É CULPADO PELO MAU USO DE EQUIPAMENTOS, INTERNET E AFINS. Não reclame! O GAJO DA INFORMÁTICA com certeza fez o possível e dentro da legislação em vigor para você pagar menos. Se quer fazer upgrades de borla, instalar programinhas giros, etc., faça-o, mas antes demita O GAJO DA INFORMÁTICA e contrate um PICHELEIRO.

14 - Os GAJOS DA INFORMÁTICA não são os criadores dos ditados "o barato sai caro" e "quem paga mal paga a dobrar". Mas eles concordam.

15 - Informática é referente à computadores (HARDWARE OU SOFTWARE e muito raramente, os dois ao mesmo tempo), e não TV's, telemóveis e electrodomésticos, etc. Portanto, O GAJO DA INFORMÁTICA não vai ensinar-lhe a mexer no telemóvel, reparar a sua TV, etc.

16 - Existem vários tipos de GAJOS DA INFORMÁTICA e cada um tem a sua especialização. Se você parte uma perna não vai ao oculista, pois não? Assim, se o GAJO DA INFORMÁTICA é especialista em software e programação poderá não estar muito à vontade sobre HARDWARE ou REDES e vice-versa para realizar um trabalho de qualidade, portanto não lhe peça para executar trabalhos nos quais não é especialista dizendo "você consegue fazer, para que chamar outra pessoa se você é mesmo bom nisto da informática"

Posto isto…nem sei que mais diga!

Desejo um Feliz DIA DO PAI a todos que já deixaram "semente" neste Mundo e como é obvio, hoje em especial, aos GAJOS DA INFORMÁTICA e meus colegas que são pais!

Espero que respeitem e responsabilizem o GAJO DA INFORMÁTICA no futuro!

Qual futuro? Só Deus sabe !!

quinta-feira, 12 de março de 2009

PEDESTRIANISMO ! Gostar de andar a pé !

O Pedestrianismo, que é o desporto dos que gostam de andar a pé, é já considerado por médicos e psicólogos como “um bem de primeira necessidade” e tem a particularidade de ser “consumido” fora de casa, se possível em pequenos grupos, evitando-se andar sozinho.
É altamente salutar, acredita!
Basta não teres problemas ao nível dos membros locomotores - pés e pernas – e estares em boa forma física, para experimentares esta actividade.
Rende-te a estes propósitos que alguns de nós que praticam testemunham, medita um pouco e aceita o que tenho para te sugerir:

Dá oportunidade ao teu coração.
Sente-te mais útil conhecendo e divulgando a beleza que o nosso País encerra.
Vem desfrutar da Natureza na companhia de quem mais amas ou de quem és amigo.
Muda o teu comportamento passivo.
Evita aumentar o teu peso.
Esquece o envelhecimento.
Esmaga o vazio da solidão.
Aumenta a confiança em ti próprio.
Vem passar melhor o tempo.
Vais ver que te vais sentir melhor logo a seguir ao 1º passeio.
Sobre o nosso País, não te julgues de todo conhecedor e informado.
Com este exercício moderado vais descobrir paraísos escondidos, onde podes tirar e guardar fotos naturais e espectaculares que alguma vez pensaste vir a ter.
Aceita mudar a rotina dos dias de descanso.
Altera os teus hábitos de vida.
Não sintas o tempo a passar.
Não vivas apenas só para Ti!

Com os teus olhos e pelos teus próprios pés, irás verificar que o PEDESTRIANISMO é um fantástico desporto que pode ser praticado por TODOS !!
Basta querermos, estarmos disponíveis e trazermos connosco familiares e amigos do coração.
Sê também um aderente desta fantástica modalidade!
Informa-te primeiro sobre o local que pretendes conhecer a pé, os meios e acessos para lá chegares e sabe se já existem nessa região Percursos Pedestres sinalizados circulares, isto é, com partida e chegada ao mesmo local, que são a melhor forma de se iniciar esta actividade.
Se não tiveres ninguém, deves inscrever-te numa Associação ou Clube que pratiquem esta modalidade, pois têm guias que orientam e conduzem os percursos.
Com os Clubes ou em grupos familiares, digo-te que cada caminhada é uma surpresa.
Conjugando o prazer de caminhar e conviver, tornamo-nos mais sensíveis aos valores humanos, paisagísticos, patrimoniais e históricos.
Multiplica-se a amizade e o carinho especial de quem ama a Natureza.
Uma boa maneira de te preparares para fazer uma caminhada é começares a passear, até mesmo na zona onde habitas, aumentando gradualmente a extensão e a dificuldade do percurso.
Estas são as regras básicas de sinalização que deves conhecer:

Percurso Pedestre Sinalizado

Um percurso pedestre sinalizado é uma rota previamente sinalizada com marcas próprias e que permite caminhar numa determinada região com a certeza de não nos perdermos e de, ao mesmo tempo, termos a oportunidade de visitar os locais mais interessantes, suas paisagens e património.
Existem dois tipos de percursos pedestres: os de pequena rota e os de grande rota, designados respectivamente por PR e GR. Os primeiros são normalmente caminhadas que se fazem num dia, que podem ter 10, 20 ou 30 km, enquanto que os segundos são longas travessias, com 100 Km ou mais, só para se teres uma ideia.

Regras de Ouro

Porque já tenho alguma experiência, deixo algumas regras básicas para quem se quer iniciar nesta actividade:
Toma um bom pequeno-almoço (por exemplo, leite, pão, manteiga, queijo e fruta fresca) cerca de 1 hora antes da Caminhada.
Atempadamente deve-se arranjar e levar para o percurso um folheto ou mapa explicativo do trajecto que na prática se vai percorrer. (pessoalmente não uso gps ou coisa que o valha, pois retiraria a adrenalina e o interesse da descoberta)
Em percursos de maior grau de dificuldade deve-se economizar forças evitando falar.
Quando se está a subir, a caminhada inicia-se num passo lento e em ziguezagues, a fim de despender o menor esforço possível. Este aquecimento permite aumentar a passada até se atingir um ritmo óptimo, tanto da passada como da respiração.
Deve-se manter um ritmo de caminhada regular e evitar paragens demoradas.
Uma caminhada normal deve ser moderada de modo a poder ser sustentada durante 6 a 9 horas, afim de que termine antes de anoitecer. Uma cadência razoável corresponderá a uma velocidade média de 4 Km/h em terreno plano e descidas e de 3 Km/h nas subidas.
O ritmo de caminhada deverá ser adaptado ao nível do grupo, sendo o esforço doseado ao longo de cada etapa com algumas paragens para repouso e reforços de bebidas e algum alimento que se transporta numa pequena mochila (fumar ou beber álcool não é recomendado sob forma alguma) e nas paragens deves contemplar o meio envolvente, tirando as tuas fotos.

Equipamento

Consoante as diversas condições climatéricas, distância, e duração dos percursos, cada Caminheiro deve fazer-se acompanhar de equipamento próprio, adaptado à época do ano.
Calor: roupas leves e frescas, cores claras, cobertura para a cabeça, óculos de sol e protector solar.
Vento forte e/ou chuva: impermeável leve e transpirável, blusão e calças.
Frio: roupa quente em lã (mantêm o calor, mesmo molhada) ou fibra polar (mais leve, mais resistente à abrasão, mais transpirável e maior manutenção do calor), gorro e umas luvas.
É preciso não esquecer que na montanha o tempo muda repentinamente.
O calçado é a peça fundamental da actividade de andar a pé. As botas devem ter uma confortável protecção do tornozelo, ser maleáveis, impermeáveis, leves, resistentes, confortáveis e ter uma boa aderência em todos os pisos.
Equipamento suplementar:
Leve um par de sandálias ou ténis confortáveis, um par de meias e uma muda de roupa, que pode deixar no carro para poder utilizar no final da caminhada.

Por fim, apenas te digo :

É tão importante manter o vigor do corpo para conservar o do espírito !

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A GEIRA ROMANA / VIA NOVA (1)

Gerês – 13 de Janeiro de 2007

Fotos originais de Filipe Pinto

A SERRA DO GERÊS

A aventura na Natureza já não tem limites. Não existem mares por explorar e continentes desconhecidos. Apesar das fronteiras geográficas terem caído, permanece ainda um imenso mundo natural que alguns querem descobrir.
Mesmo dentro do nosso país, muitos ouvem falar da Serra do Gerês mas, para eles é uma serra como tantas outras.
Para nós é a “Rainha das Serras”!
Nesta serra vive alguma gente, embora ao longo dos anos muitos tenham emigrado, fazendo com que, em parte pouco habitada pelo homem, conserve ainda um grande estado de pureza. Animais e plantas prosperam, para nossa consolação.

Há vestígios dos nossos antepassados e sentimos vontade de os descobrir e reviver.
Para os nossos percursos trazemos sempre aquele espírito de conseguirmos associar e desfrutar da componente física, cultural e paisagística, que enriquecem e fortalecem o corpo e a mente durante este salutar passatempo que são as caminhadas.
Todavia, o nosso Passeio de hoje tem outra componente mais marcante, mais misteriosa e por isso mais apetecível: a histórica!
Digo-vos que é necessário ter muita sensibilidade para sentir na pele os arrepios e a emoção que é percorrer a Geira Romana, esse importante testemunho com dois mil anos de história! – construída em condições precárias daquela época, que os nossos antepassados deixaram e o tempo fez chegar até aos dias de hoje.
Para mim, a Geira ou Via Nova ( a Via Militar Romana XVIII do Itenerário de Antonino ) inserida no Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG) é dos percursos mais fantásticos e mais belos!

Os troços da via que vamos hoje percorrer, desenrolam-se ao longo das vertentes meridionais do Vale do Rio Homem.
Vamos caminhar desde a Milha XXVIII na Freguesia de S. João do Campo até à Milha XXXIX no Lugar de Baños de Rio Caldo, Freguesia de Lobios / Espanha, onde existem as ruínas da “Aquis Originis”, a segunda “mansio” da Via Nova.
Esta Caminhada acontece cerca de DOIS MIL ANOS após a construção desta via.

Continua…

A GEIRA ROMANA / VIA NOVA (2)

Gerês – 13 de Janeiro de 2007

Vilarinho da Furna

Como homenagem às gentes que durante séculos viveram na desaparecida aldeia comunitária de Vilarinho da Furna, deixamos este importante poema do Mestre Miguel Torga


REQUIEM

Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavradas,
Aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um “letes” de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.

Continua…

A GEIRA ROMANA / VIA NOVA (3)

Gerês – 13 de Janeiro de 2007

Um pouco de História

A ÉPOCA ROMANA

Nos limiares da era Cristã, Roma impõe definitivamente o seu domínio na Hispânia pela força de um exército poderoso e organizado.
Redistribuíram as terras conquistadas aos Bracaros e organizaram-nas administrativamente. O “latim” torna-se a língua dominante. Unifica-se o direito, a moeda, os padrões de peso e medidas e o próprio calendário.
Constroem-se cidades e vilas e a vida urbana renova hábitos de convivência social, com preferência pelos jogos de guerreiros e estâncias termais e multiplicam-se as necessidades de consumo. Mais tarde, grandes Imperadores como Caio Júlio César Octaviano Augusto, sobrinho e herdeiro de Júlio César, o máximo pontífice, transmitindo um diálogo de poder universal perante o Povo, cultivava-se intelectualmente em aulas de “retórica” (a arte de falar em público) transmitindo grandeza, sabedoria e progresso.

Mas, as primeiras vias daquele tempo não permitiam grandes deslocações entre Cidades e Vilas onde se edificavam anfiteatros e as “mansio”ou estâncias termais.
Com o rápido crescimento do Império nas antigas terras da Hispânia, houve necessidade de se criarem outras vias terrestres para a comunicação entre as Cidades e locais importantes daquele tempo.
Neste contexto foi então aberta uma VIA NOVA entre Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astorga), sob o domínio dos Flávios, na segunda metade do sec. I d. C. Esta via em toda a sua extensão entre Bracara e Asturica somava duzentas e trinta e cinco milhas, que perfaziam cerca de 318 km.
Sendo uma das estradas romanas mais bem preservadas, conservam-se ainda um grande numero de MILIÁRIOS que “balizavam” essas mesmas MILHAS.

Breve descrição das Milhas que percorremos

Convém lembrar que a milha romana equivalia a mil passos , cerca de 1500 metros.

Entre as milhas XXIV e XXXIX observam-se vários conjuntos de marcos miliários, somando um total de 91. Só na milha XXXI, conservam-se 21 marcos.
É de sublinhar que a VIA NOVA corre, neste trecho pela parte superior do Vale da Ribeira da Roda, alcançando a Veiga de Covide, e depois por uma depressão de origem tectónica (Campo de Gerês) o que lhe permite entrar no curso superior do Rio Homem, de uma forma directa.

Atravessando esta depressão, evita um longo percurso pela margem direita do rio Homem, ao longo do seu médio curso. As duas veigas de grande fertilidade – Veiga de Covide e Veiga de Campo do Geres, permitem ao caminhante contemplar uma paisagem rural típica do Minho e repousar da longa caminhada.
Retomando forças para percorrer as milhas que restam até alcançar a milha XXXIX, o viandante entra agora no curso superior do rio Homem, prosseguindo sempre ao longo da margem esquerda, contornando a base dos contrafortes setentrionais da Serra do Gerês. O trajecto entre as milhas XXX e XXXI é deveras singular pela sua riqueza arqueológica, o que permite observar todo um conjunto de vivências dos nossos antepassados.

Entre estas duas milhas é possível observar as ruínas de um edifício, escavado em 1992, em forma de rectângulo, aparelhado com pedra picada e bons alicerces, que poderá ter sido uma mutatio. Para além da mutatio, é ainda visível um troço original da via assente em grandes lages. Um pouco antes deste lajeado, na base da encosta, sobressai um penedo com pequenas cavidades rectangulares em linha e separadas por intervalos iguais, demonstrando a técnica usada para a extracção de blocos graníticos.

Ainda na Bica da Geira podemos encontrar um aglomerado de 21 miliários assinalando a milha XXXI.
Através da estrada florestal, resguardada por um belíssimo carvalhal, alcançamos a milha XXXII, na Volta do Covo, onde se regista um conjunto de 22 miliários.
Na Albergaria, um pouco adiante deste local, encontra-se o que resta de duas pequenas pontes romanas. Ao que tudo indica, a avaliar pelas escavações realizadas entre 1985 e 1987, no espaço entre as duas obras de arte, é possível que aqui tivesse existido uma instalação romana que poderia, eventualmente, ser um posto de controlo ou uma “statione”.
Entre a milha XXXII e a XXXIII, a via segue sem grandes oscilações de cota, por entre bosques, até junto da Ponte Feia onde se situava a milha XXXIII, assinalada por um aglomerado de 20 miliários.

Da milha XXXIII à milha XXXIV assinalamos alguns vestígios de uma pedreira de onde se extraíram os miliários desta milha e o material para a construção da Ponte de São Miguel.

O acesso à milha seguinte é feito pela margem direita do Rio Homem, tendo que atravessar este, pela ausência de ponte, pelas rochas junto à corrente, quando o caudal do rio permite.
Passando em frente a uma Casa Florestal, transpondo uma ribeira, alcança-se finalmente a milha XXXIV, balizada por 8 marcos miliários.


Na impossibilidade deve seguir-se pela estrada até à Portela do Homem.
Da fronteira da Portela do Homem abrem-se horizontes para o vale do Lima.
Já em território Espanhol, assinalamos, em Lama de Picón, local onde se localiza a milha XXXV, um miliário in sito e talvez uma possível mutatio.


Passando por Chã dos Pasteroques, milha XXXVI, onde se registam 5 miliários, por Pala Falsa, milha XXXVII e por Corgas da Fecha e de Agualevada, chegamos ao lugar de Baños, onde se localiza Aquae Originis, a segunda mansio da VIA NOVA, assinalando a milha XXXIX.


Baños de Rio Caldo, cujas águas termais eram muito procuradas pelos romanos, são hoje uma pequena localidade com alguma vivência turística, em resultado do balneário termal recentemente construído. As escavações arqueológicas realizadas no lugar do Covelo, perto das nascentes termais, puseram a descoberto vestígios arqueológicos pertencentes, muito provavelmente, à segunda mansio da VIA NOVA, assinalada no Itinerário de Antonino.

Continua…

A GEIRA ROMANA / VIA NOVA (4)

Gerês – 13 de Janeiro de 2007

Construção e manutenção da VIA NOVA

Na VIA NOVA o traçado foi cuidadosamente planeado por arquitectos, engenheiros e pelos “gromatici”, os topógrafos que, apesar dos utensílios rudimentares, já calculavam com exactidão as distâncias e os declives.
A VIA NOVA foi construída de tal modo que, apesar de cruzar um espaço montanhoso com serras que chegam aos dois mil metros, só em alguns troços pouco extensos, alcança 900 metros. Os miliários de Tito e Domiciano documentam a abertura da via. O granito e o xisto, que formam o substrato rochoso ao longo de grande parte do traçado da via, foram utilizados de forma abundante, nos pavimentos lajeados, nos muros de suporte, nas obras de arte e claro, nos miliários. Num contexto climático com alta pluviosidade, com pendores significativos, o traçado da VIA NOVA estava sujeito a processos erosivos intensos, justificando sucessivas obras de manutenção. Os miliários de Maximino e Máximo apresentam um texto muito expressivo, referindo o restauro de pontes e caminhos deteriorados pelo tempo.

A Pavimentação

Para se entender as características construtivas da VIA NOVA é necessário ter em conta o substrato rochoso da região, formado por diversos tipos de granito. Mantendo como objectivo primordial um traçado estável, sem grandes oscilações de cota, a engenharia romana adaptou o traçado de via às condições litológicas e geomorfológicas. Em muitos locais, nos troços de meia vertente, o substrato rochoso era aplanado, por forma a garantir uma superfície dura, sobre a qual se dispunham uma ou várias camadas de preparação, de grande robustez. Sobre esta camada assentavam dois tipos de pavimento. Nas zonas planas, o piso era de terra batida, misturando arenas e alterites, garantindo deste modo plasticidade e consistência. Nos declives observam-se calçadas de lajes irregulares. Noutros pontos a própria rocha terá funcionado como pavimento, talvez porque o grau de dureza não facilitava a sua desmontagem. Ao longo dos séculos o lajeado das calçadas foi sempre reparado, pelo que não se pode considerar que seja, integralmente, da época romana. Em muitos dos vários troços de calçada observáveis, no percurso da Geira, é fácil registar o desgaste variável das lajes, o diferente grau de polimento e a desigual profundidade dos sulcos dos carros. A VIA NOVA foi cuidada ao longo de séculos pelo que, ao lado de uma laje original, está uma outra colocada séculos depois.

O Traçado

O traçado da VIA NOVA tem sido objecto de estudo por inúmeros investigadores portugueses e espanhóis, desde o século XVIII. No seu conjunto estes estudos permitem esboçar o percurso deste caminho, nas suas grandes linhas.
Da cidade de Braga descia até ao rio Cávado, que transpunha no sítio da Barca de Ancêde. Depois, rumava a norte e trepava pelos últimos contrafortes da serra de Santa Isabel, ou da Abadia. Abandonava, assim, o vale do Cávado, prosseguindo pelas vertentes meridionais do vale do Rio Homem até Covide, onde entrava na Serra do Gerês. Atravessava a veiga de S. João de Campo e retomava o Vale do Rio Homem até à portela homónima. A partir daqui, descia pelo vale de Rio Caldo, onde se situava a mansio de Aquis Originis, continuando até ao vale do Lima que transpunha a jusante de Bande (mansio de Aquis Querquernnis). Daqui prosseguia para nordeste, ao longo da margem direita daquele rio, pela região da Baixa Limia até à Lagoa de Antelas, zona dominada pelo pequeno relevo onde ficava a mansio de Aquis Geminis e onde hoje se observam os restos do Castelo de Sandiás. Neste ponto rumava para norte até ao vale do Rio Arnoya, onde se localiza a mansio Salientibus. Depois retomava a direcção nordeste, trepando até ao altiplano de Trives, entrando assim no seu percurso mais acidentado. Nesta zona situavam-se duas mansiones: Praesidio (Burgo); Nemetobriga (Póboa de Trives). Em seguida cruzava, sucessivamente, os rios Návea, Bibei, onde se conserva intacta uma Ponte Romana, e o Sil, em Cigarrosa (mansio Foro Gigurrorum). Daqui subia para nordeste, ao longo do vale do Rio Sil e do seu afluente Entoma, atingindo, assim, a rica zona mineira de Bierzo (Bergidum Flavium). Daí cruzava os Montes de León, alcançando, deste modo, Asturica Augusta. Num percurso de 215 milhas, a VIA NOVA atravessava diferentes regiões naturais e diversas bacias hidrográficas, bem como distintos populi entre os quais referimos os Bracari, os Querquernni, os Limici, os Tamacani e os Gigurri.

No conjunto da rede viária do extenso império romano, o caminho entre Bracara Augusta (Braga) e Asturica Augusta (Astorga – Província de Léon), por Bergidum Flavium (Ponferrada), constitui um testemunho excepcional de uma época em que a Europa era um espaço comum. A construção da VIA NOVA, na segunda metade do século I d.C. reforçou a malha viária, permitindo o reordenamento territorial, a intensa actividade mineira, com destaque especial para o ouro, contribuindo a longo prazo para a emergência de uma entidade histórica que perdurou ao longo dos milénios: a Callaecia.

Continua…